VIII — A porta do juramento

Tovan servira a Odran antes de entrar na oficina. Foi ele quem nos contou que o custódio conhecia pelo nome os órfãos da enchente. Foi também ele quem nos mostrou a ordem que mandava fechar os portões durante as febres, mesmo que houvesse viajantes do lado de fora.
Guardava o papel dobrado dentro do escudo.
Eu lhe perguntei por que conservar uma ordem da qual se envergonhava.
— Para não dizer depois que apenas a ouvi.
Na primavera, uma caravana chegou à passagem do poente. Vinha de terras onde os campos haviam adoecido. Os homens da guarda baixaram as lanças; os viajantes ergueram crianças para mostrar que não levavam armas. Tovan conhecia os dois gestos e sabia o pouco que um explicava ao outro.
Havia risco. Inara encontrou sinais de doença numa das carroças. A água da cidade era escassa. Abrir a porta sem cuidado poderia condenar os que esperavam abrigo e os que o ofereciam.
O capitão pediu a Tovan que reforçasse a barreira.
Ele pousou o cajado no chão. Sua antiga espada continuava à cintura, pois os anos de estudo não haviam apagado o saber de suas mãos. Mas era no apoio firme do cajado, no peso distribuído entre os pés e na promessa que escolhera sustentar que sua mana encontrava passagem.
O Escudo da Fé fortaleceu a defesa. O poder que ali depositou fez seus golpes perderem parte da violência. Aceitou a troca. Durante algum tempo, o portão esteve seguro.
Então uma criança, do lado de fora, perguntou se poderiam ao menos devolver a bola que rolara por baixo da grade.
Tovan viu a mão pequena entre os ferros.
A ordem mandava proteger a cidade. Não dizia o que fazer com aquela mão.
Propôs abrigos separados junto à muralha, água levada em recipientes limpos, cuidados de Inara e vigias que não tratassem os doentes como prisioneiros. O capitão recusou: a exceção poderia ensinar os viajantes a esperar outras exceções.
Tovan retirou a ordem de dentro do escudo.
— Então que aprendam.
Não derrubou o portão. Convenceu os trabalhadores a abrir um acesso para o pátio exterior, onde havia espaço e sombra. Quando um grupo de saqueadores tentou aproveitar a confusão, deixou a postura defensiva e avançou pela passagem estreita.
Na Mão da Justiça, o peso do corpo e do ferro encontrou um caminho mais vigoroso. A barreira que sustentava atrás de si tornou-se menos robusta. Tovan avisou Inara antes de mudar; ela retirou os feridos da linha. O Sagrado não desapareceu da sua arte. Sua atenção apenas servia a outra necessidade.
Mais tarde, para afastar os perseguidores da última carroça, buscou o Caminho Divino. A luz projetou sua presença adiante, seu passo tornou-se ligeiro e o desafio alcançou os que ameaçavam os refugiados. Outra vez ele pagou com parte da segurança da própria barreira. Não se tornou invencível. Voltou com o ombro aberto e precisou de ajuda para desatar a couraça.
A criança recuperou a bola.
Odran compareceu ao pátio na manhã seguinte. Trouxe pão, mantas e uma censura cuidadosamente preparada. Tovan recebeu as mantas antes de ouvi-lo.
— Juraste guardar a porta — disse o custódio.
— Guardei a passagem.
— Fizeste inimigos entre os teus.
— Sei.
Odran esperou uma justificativa maior. Tovan não a tinha. Ainda sentia medo de que a doença atravessasse os cuidados, de que alguém morresse por sua decisão. A fé não lhe retirara essa dúvida. Exigia que permanecesse ali para responder por ela.
No fim da estação, os doentes que sobreviveram partiram. Os que morreram foram enterrados com nome. Dário registrou os dois grupos em páginas diferentes, sem ocultar nenhum.
Tovan fixou a argola da lanterna no cajado. Seu juramento mudou de palavras: protegeria quem estivesse ao seu alcance, sem transformar o abrigo em posse.
Odran levou consigo uma cópia desse juramento. Na margem escreveu apenas: «Insuficiente.»