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Livro das Afinidades

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O LIVRO DAS AFINIDADES

VII — O lugar à mesa

Ilustração de VII | O lugar à mesa

Dário esperou até acreditar que todos dormiam para retirar a máscara.

Vi-lhe o rosto porque também eu não dormia. Era mais jovem do que sua voz fazia supor, pálido de vigílias, com uma cicatriz pequena no queixo. A máscara repousou ao lado do pão. Antes de comer, ele lavou as mãos por muito tempo.

— Julgavas que não tinha rosto? — perguntou.

Eu julgava que não precisava descansar. Disse-lhe isso. Ele riu sem alegria.

Seu irmão morrera numa enfermaria em que os curandeiros já não dispunham de força. Dário aprendera a perceber o esgotamento de um corpo antes de aprender a conduzir mana. Conhecia a diferença entre um peito que trabalhava para viver e outro em que restava apenas um movimento. Os sacerdotes lhe chamaram mórbido. Os feridos chamavam por ele durante a noite.

No salão dos círculos, encontrara em mim um fio que ainda não se rompera. Vigiara esse fio, chamando Inara sempre que o sentia enfraquecer. Desde então, repetia o instante nas anotações, como se a precisão fosse capaz de devolver-lhe o irmão.

Não era.

Encontramos a Casa do Último Pão nas encostas baixas, onde se enterravam viajantes sem família. A mulher que a guardava sabia o nome de quase todos. Aos demais dava uma descrição e conservava seus pertences para que alguém pudesse reconhecê-los. Dário ficou trabalhando com ela durante um inverno.

Aprendeu que corpo, sangue e alma exigiam distinção. O sangue oferecia caminho para a força vital; não continha uma pessoa inteira. Uma sombra que repetisse a voz de um morto não bastava para provar que o morto voltara. A mulher mostrou-lhe um anel que conservara a lembrança do toque do marido falecido. Ao tocá-lo, ouvia sempre a mesma nota. Ela o amava e sabia que era apenas um anel.

As três posturas de Dário nasceram desse cuidado e da tentação de abandoná-lo.

Na Arte Tenebrosa, a Morte alcançava mais longe; a maldição se estendia e o medo podia abrir espaço diante de inimigos suscetíveis. O vigor perdido por eles não retornava automaticamente ao conjurador. Dário percebeu isso numa perseguição, quando quase desmaiou esperando uma força que não havia chamado de volta.

Na Arte Sanguínea, contraía o alcance e sacrificava parte da violência para recolher vitalidade de um golpe verdadeiro. Nenhum cálice cheio por desejo substituía essa troca. A recuperação tinha medida; diante de uma resistência forte, o que chegava podia ser pouco.

Na Arte do Sifão, aproximava-se ainda mais, aceitava uma expressão menor de força e trabalhava tanto com o alento quanto com a mana que pudesse alcançar. O perigo crescia com a proximidade. Ele não podia manter as três disposições como se fossem três refeições servidas ao mesmo tempo.

Era essa a comparação pela qual explicávamos o nome dos Comensais. Todos recebiam alguma coisa à mesa da vida. A disciplina começava na porção que se consentia tomar.

Certa noite, um saqueador entrou na Casa. Feriu a guardiã dos sepulcros e tentou levar a caixa dos anéis. Dário o alcançou junto à porta. A fome respondeu antes de sua cautela. O homem caiu, e Dário sentiu a dor nos próprios ombros desaparecer.

Poderia continuar.

Foi esse o momento que ele registrou com maior vergonha: não a violência, mas o alívio que a tornava desejável.

Tovan segurou-lhe o braço. Dário ergueu o rosto, furioso. O Guardião não levou a mão à espada.

— Ela precisa de ti — disse, indicando a mulher ferida.

Dário interrompeu a drenagem. O saqueador sobreviveu para responder pelo que fizera. A guardiã também sobreviveu, embora passasse a mancar. Nenhum dos dois se tornou uma parábola limpa.

Na manhã seguinte, Dário costurou uma tira nova à máscara. Passou a vesti-la antes de trabalhar e a retirá-la ao terminar. O objeto não impedia a fome. Marcava o instante em que ele se obrigava a reconhecê-la.

Tovan escreveu uma frase no caderno dele: «Vi-o parar.»

Dário nunca a riscou.

Sumário · Crônica, cadernos e personagens
  1. Prólogo — A sétima mão
  2. I — A cidade que repetia
  3. II — O que a cinza conserva
  4. III — Sete círculos e uma cadeira vazia
  5. IV — Os caminhos do Círculo Alquímico
  6. V — A distância de uma chama
  7. VI — O jardim que precisava de tesoura
  8. VII — O lugar à mesa
  9. VIII — A porta do juramento
  10. IX — O nome sob a língua
  11. X — Aquilo que o ferro aceita
  12. XI — Aqueles que respondem
  13. XII — A cidade sem outono
  14. XIII — A noite das passagens
  15. XIV — O que os vencedores devem
  16. XV — O nome que foi raspado
  17. Epílogo — A porta aberta
  18. Caderno I — Roteiro das sete mãos
  19. Caderno II — Três folhas de prática
  20. Caderno III — Memorial dos companheiros
  21. Caderno IV — Das sete forças
  22. Caderno V — Testemunhos do desequilíbrio
  23. Colofão — O que se conservou
  24. As cinco vocações
  25. Pessoas da crônica
  26. Palavras das afinidades

Crônica das sete forças e do nascimento das cinco vocações. Quinta edição, revista e ampliada — setembro de 2026.

Universo e texto de origem: projeto Alchemia. Desenvolvimento literário, revisão, ilustrações e diagramação com assistência de inteligência artificial e direção do criador do projeto.

Os relatos, tratados e vozes das margens pertencem à ficção. A carta da jornada representa os lugares da crônica.

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