VI — O jardim que precisava de tesoura

Inara voltou à aldeia para encontrar uma árvore atravessando o telhado da casa de sua irmã.
O tronco nascera de um caroço que ela própria encantara antes de nossas viagens, para ensinar às crianças a diferença entre uma semente viva e uma pedra. A aldeia conservara o recipiente, juntara-lhe terra fértil e repetira o canto. O inverno fora brando. Quando os galhos começaram a ferir a calha, ninguém quis cortá-los. A árvore pertencera à alegria de todos.
Agora a raiz bebera o poço menor, e uma parede estava aberta.
Inara percorreu o pomar sem falar. Sua irmã, Lessa, esperava uma cura que não custasse nenhuma folha. Arel esperava licença para cortar o tronco pela base. Ambos se decepcionaram.
Durante três dias, Inara separou os brotos, desviou raízes e retirou ramos doentes. Sálvia lhe ensinara a não confundir o que tinha vigor com o que podia continuar crescendo. Ainda assim, a moça demorou até a terceira noite para admitir que o tronco principal deveria cair.
— Fui eu quem o chamou — disse.
— E fomos nós que o alimentamos — respondeu Lessa. — Não tornes a fazer tudo sozinha, nem mesmo a culpa.
Cortaram a árvore ao amanhecer. A madeira boa virou bancos. Um dos bancos passou a acompanhar nossas reuniões, e Arel nunca o confundiu com lenha.
Foi naquele pomar que os três caminhos de Inara começaram a se distinguir. Nas Ervas Curativas, sua atenção seguia a parte ferida, auxiliava a vida que ainda trabalhava e, por vezes, alcançava outro corpo próximo que também necessitasse de cuidado. Ela precisava escolher onde começar. Uma mão não se tornava menos cansada porque duas pessoas precisavam dela.
No Toque do Veneno, aprendia a fazer a Terra trabalhar lentamente contra uma ameaça. O efeito podia prosseguir depois do gesto; um perseguidor perdia vigor e seu passo se tornava pesado. Isso não lhe criava raízes nos tornozelos. Era outra arte, outro modo de conduzir.
O Domínio dos Espinhos exigia que pensasse no chão, nas passagens e no tempo necessário para alguém escapar. As raízes prendiam por um intervalo. Nem toda criatura lhes cedia; uma vontade antiga ou uma forma poderosa podia resistir. Inara aprendeu a medir o êxito por quem passava a salvo, em vez de pelo número de inimigos imobilizados.
As três disciplinas nasceram do mesmo estudo da Terra. Nenhuma a dispensava de conhecer o corpo diante dela.
Um moço febril foi trazido do campo. Sua mãe pediu que a ferida fosse fechada depressa; o sangue lhe molhava a manga. Inara quase obedeceu. Depois viu, sob a carne, um brilho que não era sangue. Retirou a lasca de ferro antes de chamar a cura. O menino gritou durante o trabalho e dormiu depois. A mãe abraçou Inara como quem pede perdão por ter desejado pressa.
A minha mão, porém, não voltou.
Registre-se isso, pois os livros de mestres preferem as curas às impossibilidades. Inara cuidou do coto, da febre, da dor que por vezes me acordava em dedos ausentes. Houve manhãs em que chorou longe da minha cama. Não lhe prometi que deixaria de sofrer. Pedi que continuasse voltando.
Mais tarde uma corrupção alcançou os animais dos charcos. Alguns cadáveres se moviam como se o último instante lhes tivesse sido negado. Nas mãos de Inara, certas artes restauradoras feriram aquelas formas desordenadas. Ela compreendeu que restituir um curso à vida podia desfazer o que a aprisionava. O esforço era grande, e o resultado não se estendia a toda criatura, nem a qualquer inimigo escolhido por rancor.
Dário recolheu os nomes dos animais de criação. Pareceu-me um excesso até ver um velho procurando o sino da cabra entre os restos.
Naquela noite Inara escreveu sua primeira máxima: «Toda medida exige que se olhe de novo.»
A pedido de Sálvia, risquei a palavra «primeira» que eu pusera no cabeçalho.
— Ela já a sabia quando inclinou o prato para a raiz — disse Sálvia.
Do Herbário das Duas Medidas
> Não registres somente a folha: descreve o solo, a estação, o vaso e o efeito observado. O que aliviou um corpo pode afligir outro. À margem da receita, deixa lugar para o fracasso. É costume dos vaidosos gastar aí todo o papel com o próprio nome.
> Nota de Inara: estas folhas tratam das ervas do nosso mundo e das artes que as despertam. Não confundais a semelhança de um desenho com o conhecimento de uma substância.