V — A distância de uma chama

Mesmo depois de tantos anos, Arel afastava minha mesa da janela ao preparar um encantamento. O cuidado me irritava, embora eu soubesse de onde vinha. Quando lhe faltavam palavras, colocava pão diante de mim e oferecia-se para ditar os registros. Sua letra continuava pior que a que eu traçava com a mão esquerda. Já não lhe poupava essa informação.
Num outono em que regressáramos à oficina, partimos para a fornalha abandonada, acima das pedreiras. Sálvia enviara notícia de criaturas que desciam das galerias aquecidas, expulsando os trabalhadores. Arel se ofereceu para resolver o problema antes da chuva. Falava assim dos problemas: como se fossem tarefas que obedecessem ao seu horário.
Na primeira galeria, o fogo respondeu depressa. Expandiu-se pelo teto e encontrou a madeira seca que sustentava a galeria. Arel dera ao feitiço o hábito da chama: alimentara sua persistência, abrira-lhe os lados, deixara que o calor continuasse trabalhando depois do clarão. Os animais recuaram. Os homens também.
Uma viga começou a ceder.
Tovan empurrou-nos para trás. Inara cobriu a boca dos mineiros com panos molhados. Arel tentou recolher a labareda como quem puxa uma fita. O incêndio prosseguiu onde já encontrara alimento.
— Ela sabe continuar sem ti — disse o Alquimista.
Arel ficou para ajudar a retirar os feridos. Não fez gracejos enquanto carregava o último.
Nos dias seguintes, trabalhou com uma chama do tamanho de uma unha. Aprendeu a sustentar sua postura nos pés, na respiração e na direção da atenção. O Fluxo de Fogo favorecia a expansão e a brasa que permanecia; isso não transformava qualquer outro encantamento em fogo. Havia que conhecer a natureza do que se chamava.
O Fluxo de Energia exigiu dele outra paciência. A descarga procurava caminhos, percorria distâncias que a chama não venceria e podia saltar adiante do primeiro ponto atingido. Arel passou a observar metais, umidade e corpos próximos antes de erguer a varinha. A mão que tremia de vontade aprendeu a esperar pelo olhar.
Chamava a essas lições «as pequenas humilhações do relâmpago».
Voltamos à fornalha depois de reforçar as vigas. Não levamos apenas magos: vieram um carpinteiro, dois mineiros e uma mulher que conhecia os túneis de ventilação. Arel escutou-a até o fim. Essa foi a parte da vitória que ele mais demorou a incluir no próprio relato.
Na câmara inferior, uma criatura de carapaça mineral guardava a passagem. O calor lhe percorria o dorso sem produzir efeito visível. Arel abandonou a postura de Fogo. A centelha seguinte correu pela junta exposta quando a criatura se moveu. Tovan conteve o avanço; Nael puxou o trabalhador preso junto à parede. A descarga alcançou outra criatura atrás da primeira. Arel interrompeu o arco antes que procurasse o homem.
A fornalha não desabou.
Por muito tempo foi esse o elogio que aceitou melhor.
O Método Instável veio depois, na oficina, e não numa súbita iluminação heroica. Houve tardes em que a chama se apagava quando o raio nascia; noutras, a descarga espalhava calor pelo lugar errado. O Alquimista obrigava Arel a desenhar a passagem antes de repeti-la. A forma do feitiço precisava continuar reconhecível, mesmo quando abrigasse parcelas das duas forças.
— Se não sabes onde termina — dizia —, ainda não o começaste.
Arel odiava a sentença. Acabou ensinando-a a seus discípulos.
De um fragmento de minério retirado da galeria guardou uma lembrança. Não o mais belo nem o mais raro, mas aquele ao lado do qual um mineiro permanecera preso enquanto ele admirava o próprio incêndio. Durante anos o levou na bolsa. Quando algum aprendiz lhe perguntou se era um talismã de poder, respondeu:
— É melhor. Impede-me de acreditar que já tenho bastante juízo.
Na margem desse relato encontro agora uma seta e três palavras, escritas por ele: «Nem sempre funciona.»