III — Sete círculos e uma cadeira vazia

Ao fim do nono mês, o Alquimista recebeu licença para ocupar o salão sob o reservatório. A autorização vinha assinada por Odran, custódio da cidadela, homem que governava contando as coisas que poderiam faltar. Contava a água, o grão, as vigas de reposição. Desde a morte da filha, contava também os passos entre sua casa e o sepulcro.
Não era cruel naquele tempo. Era cuidadoso até a exaustão.
Ofereceu-nos o salão porque esperava obter uma proteção que não dependesse do cansaço dos homens. As enchentes haviam levado duas pontes; a febre levara os filhos de outras famílias. Um poder contínuo, dizia ele, poderia poupar à cidade a repetição de tantas perdas.
O Alquimista ouviu a proposta e pensou em outra coisa: provar que as forças do mundo podiam conversar entre si. Ambos julgaram ter encontrado um aliado.
Traçamos sete círculos separados por intervalos. Trouxemos uma vela cuja chama fora mantida durante a vigília, um fragmento de gelo de uma gruta profunda, uma muda de erva num pequeno vaso de terra, pequenas pontas de ferro marcadas por descargas, um osso e cinzas acompanhados dos nomes dos mortos, a argola luminosa da lanterna de Tovan e um pequeno lingote de ferro marcado por golpes. Nenhum objeto bastava por si. O relato da sua origem fazia parte do preparo.
Sálvia inspecionou os intervalos.
— Não os fecheis.
O Alquimista assentiu. Na folha que me entregou, porém, uma linha fina unia todas as bordas. Era uma correção recente. Odran desejava que o fluxo permanecesse dentro do desenho, sem perda alguma.
Perguntei pelo risco. O mestre respondeu que a linha só seria completada depois de observarmos o primeiro percurso.
Escrevi essa resposta.
Gostaria de dizer que insisti.
Arel entrou primeiro. A chama se ergueu e, das pontas de ferro ao seu pulso, correu uma luz estreita. Inara sentiu as raízes sob o piso. Dário levou os dedos à garganta. Tovan firmou os pés; a argola iluminou a palma de sua mão. Nael caiu de joelhos quando o gelo começou a estalar.
Eu caminhava por fora, registrando as respostas. Esperávamos que a disciplina produzisse igualdade. O que vimos foi diferença: cada corpo abria uma passagem e resistia a outras. Mesmo o Alquimista, com seus muitos anos de estudo, não sustentava todas ao mesmo tempo.
Odran observava da escada.
— A perda está nos intervalos — disse.
O mestre deveria ter interrompido o trabalho. Em vez disso, molhou o pincel.
Quando a última abertura se fechou, o ar perdeu o som.
Recordo a boca de Arel movendo-se, o cajado de Inara batendo no chão, uma sombra que se levantou atrás de Dário. Recordo sobretudo a água da jarra de Sálvia: permaneceu imóvel enquanto o vidro se desfez.
Nael mudou primeiro. Não numa fera inteira, mas numa confusão de formas que não encontravam lugar. Tovan tentou alcançá-lo. A luz segurou-lhe os braços como uma armadura sem juntas. Inara puxou uma raiz através da inscrição. Ela cresceu, engrossou e continuou crescendo, incapaz de concluir o próprio gesto.
Eu derramei a tinta sobre a linha recém-fechada.
A mão direita estava perto demais.
Não descrevo a dor. Há coisas que o leitor não precisa sofrer para acreditar em mim. Direi apenas que o som voltou de uma só vez e que, quando tornei a ouvir, Dário repetia meu nome. Percebia quando minhas forças minguavam e avisava Inara. Ela lhe pedia que continuasse atento enquanto cuidava da ferida.
Arel abriu a porta com fogo. Tovan levou Nael para fora. Sálvia apagou as marcas com água comum.
O Alquimista permaneceu junto ao desenho, segurando o pincel.
Na manhã seguinte, minha cadeira estava vazia. Odran recolheu uma cópia do círculo completo, afirmando que a guardaria para impedir sua repetição.
O mestre não lhe pediu que a devolvesse.
Essa foi a segunda coisa que escrevi quando pude tornar a escrever.