II — O que a cinza conserva

O segundo livro chegou numa carroça de ferreiro, sob ferraduras e uma gaiola vazia. Trazia o nome de Paracelcium gravado no fecho. O vendedor assegurou que o sábio fora discípulo de Merlinus. Uma carta costurada à lombada colocava seu nascimento muitos invernos depois da morte do suposto mestre. O Alquimista pagou pelo livro e recusou a genealogia, que custava o dobro.
Passamos aquele verão entre duas espécies de ignorância. Arel sabia provocar o fogo e desconhecia quase tudo do que ele deixava. Inara conhecia a substância das folhas, mas não compreendia por que algumas respondiam à sua presença. Eu podia nomear todos os recipientes e continuava incapaz de perceber quando um estava prestes a rebentar.
O Alquimista aprendeu a me afastar das janelas.
Paracelcium ensinava a examinar o vestígio. Madeira queimada, ferro ferido por um raio, osso que sustentara um corpo: cada matéria oferecia à mana um caminho já percorrido. Essa memória não pensava. Podia ser lida, excitada, adulterada. Podia também ser confundida.
Descobrimos a última possibilidade com uma moeda.
O Alquimista supôs que prata guardada durante anos num templo conservaria o testemunho de muitas vigílias. Tovan, que viera pedir conserto para o fecho do escudo, reconheceu a peça. Era o pagamento usado por um capitão para comprar a rendição de uma porta. O templo a recebera depois.
— A prata esteve no altar — argumentou Arel.
— Esteve primeiro na mão que abriu o portão — respondeu Tovan.
O homem retirou do pescoço uma pequena argola. Não era preciosa. Fora o aro da lanterna que sua mãe mantivera acesa para os viajantes num inverno de nevascas. Quando a pousou sobre a mesa, a chama da candeia inclinou-se em sua direção.
Não demos àquilo o nome de prova. Repetimos a observação muitas vezes, com outras mãos, outros metais e outras histórias. Algumas confirmaram nossa suspeita. Outras a destruíram. Aos poucos aprendemos a respeitar o que um objeto fazia mais do que o que um vendedor dizia a seu respeito.
Tovan tinha o rosto largo, uma cicatriz sob a orelha e o hábito de guardar silêncio antes de responder. Treinara entre homens de espada e entre monges que lhe corrigiam a respiração. Em ambas as casas aprendera a suportar dor. Nenhuma lhe ensinara o que fazer quando sua obediência feria outra pessoa.
O Alquimista pediu-lhe que voltasse.
Vieram também Dário e Nael, por razões que, ao princípio, ocultaram. Dário conservava registros de mortos e queria distinguir a última força do corpo daquilo que partia com a alma. Nael buscava um remédio para um frio que lhe nascia por dentro sempre que corria. Em noites de lua clara, acordava com a mandíbula dolorida e terra sob as unhas.
A oficina tornou-se pequena para tantos segredos.
Foi então que encontramos Sálvia, a druida, nos terrenos atrás do muro. Tentávamos decidir se uma raiz obedecia melhor a um canto ou a um desenho. Ela ouviu a discussão, arrancou a planta do sol e a levou para a sombra.
— Continuai — disse. — Agora talvez sobreviva até a conclusão.
Sálvia aceitou vir à oficina com uma condição: haveria, na mesa, uma bacia sem inscrições e uma jarra de água comum. Quando alguém atribuísse tudo à magia, ela o obrigaria a cuidar de alguma coisa sem recorrer à magia.
Os tratados de Merlinus e Paracelcium nunca concordaram por inteiro. Sálvia não desejava conciliá-los à força. Ensinou-nos a reconhecer três perguntas distintas: por onde passa a mana, o que a matéria conserva e quando convém cessar.
Anotei-as na mesma folha.
Arel acrescentou uma quarta: quem limparia a mesa.
Foi essa a primeira pergunta à qual todos deram a mesma resposta. Olharam para ele.
Folha atribuída ao caderno de Paracelcium
> A cinza que levas ao vaso não é a árvore restituída. Se lhe pedires o tronco, enganar-te-ás; se lhe perguntares por onde andou a chama, talvez te responda. Conserva o nome da matéria e o relato da sua mudança. O primeiro impede a troca; o segundo impede a presunção.
> Nota de Íria: três frascos perderam o nome. Conservamos o relato. Ainda assim, ninguém aceitou abri-los.