Caderno V — Testemunhos do desequilíbrio

O lugar onde ninguém morria
Um governante teria ordenado que a Morte permanecesse além de suas divisas. A primeira festa durou três dias. Depois vieram os feridos que não saravam, os corpos gastos que não repousavam e as folhas que não alimentavam o chão. Quando o interdito cedeu, as perdas acumuladas chegaram juntas. Os copistas discutem se o fato ocorreu antes de nossa cidadela ou se recebeu dela novas palavras. Conservamos essa dúvida.
A terra perfeitamente pura
Sacerdotes teriam retirado de uma região todo veneno, toda doença e tudo o que consideravam impuro. Os fungos desapareceram; os insetos também. A terra ficou clara e silenciosa. Os homens que conduziram a obra chamaram à fome um preço necessário. Os que precisavam comer deram-lhe outro nome.
O inverno preservado
Uma aldeia foi adormecida sob gelo para aguardar o fim de uma praga. Os que prometeram despertá-la não voltaram. Muito tempo depois, os corpos conservavam a aparência do dia em que se deitaram. A doença também aguardava. Um viajante ouviu pancadas no gelo. Outro diz que eram apenas pedras cedendo ao frio. Nenhum se demorou o suficiente para provar sua versão.
A floresta sem poda
Ninguém cortaria uma planta nem caçaria uma criatura. Assim juraram os guardiões de um bosque. As copas fecharam a luz; as raízes esgotaram a água; os predadores encontraram cada vez menos alimento. A floresta começou a morrer de abundância enquanto seus protetores discutiam a quem pertencera a primeira ideia.
A tempestade alimentada
Uma cidade manteve suas máquinas sob Energia contínua. As luzes não cessavam, e ninguém precisava aguardar a manhã. A tempestade acabou percorrendo os condutores até alcançar as casas e os corpos. Diz-se que os mecanismos trabalharam por três noites depois da última morte. Nos registros que restaram, não se encontrou tarefa que ainda precisasse ser feita.
A muralha invencível
Uma defesa perfeita impediu a entrada de todos os inimigos. Depois recusou a saída dos moradores. Passadas gerações, ninguém lembrava qual perigo justificara sua permanência. A própria passagem tornara-se o inimigo. Guardamos esse relato junto aos juramentos, para que os leitores não precisem procurar muito longe a advertência.
A forma perfeita
Certos praticantes reuniram vigor de urso, rapidez de pantera, faro de lobo e resistência ao frio. O relato anuncia êxito. Em seguida informa que a criatura não reconheceu os criadores como semelhantes. Falta a última folha. A ausência não nos permite concluir o destino dos homens; permite, ao menos, desconfiar da palavra «perfeita».