I — A cidade que repetia

Antes de conhecer os círculos, conheci a fila.
A fila começava junto ao pórtico da Casa das Medidas, dobrava o muro e terminava no mercado, entre os cestos de cebolas. Cada pessoa levava alguma coisa quebrada: uma lâmina, um braço, uma promessa. Aos magos cabia decidir quais reparos mereciam mana. Aos alquimistas entregavam os restantes.
Eu copiava as ordens. Tinha dezessete anos e a vaidade dos que julgam saber uma coisa porque aprenderam a escrevê-la. Mantínhamos três formulários para queimaduras e nenhum para a fome. A fome, explicava o mestre dos registros, não era uma ocorrência extraordinária.
Foi numa dessas manhãs que Arel incendiou o seu requerimento.
Não o fez de propósito. O papel começou a arder quando o guarda lhe disse, pela terceira vez, que uma centelha sem autorização constituía exercício indevido da arte. Arel abriu a mão, e o fogo passou da folha para os dedos escuros sem os consumir. Tinha os cabelos cortados rente ao couro cabeludo e o sorriso pronto dos que aprenderam cedo a fazer de uma censura um espetáculo.
— Posso requerer autorização para apagar? — perguntou.
O guarda chamou os sacerdotes.
Inara chegou antes deles. Trazia duas tranças presas por um cordel, botas de campo e uma cesta coberta por pano úmido. Pousou uma folha sobre a mão de Arel. O fogo morreu; o cheiro da planta tornou-se amargo.
— Era a última boa para febre — disse ela.
— Hei de pagar.
— Primeiro aprende a não gastar o remédio dos outros.
O homem que observava a cena junto à porta dos fundos soltou uma risada curta. Vestia um manto remendado na altura dos cotovelos; carregava uma caixa de instrumentos cuja fechadura fora substituída por barbante. Eu o conhecia como o alquimista a quem mandávamos os pedidos inconvenientes.
Chamou os dois para dentro. Chamou-me também, pois alguém teria de registrar o estrago.
Sua oficina ficava por baixo da sala em que os magos examinavam os candidatos. O teto tremia com as declamações. Sobre as mesas, os frascos respondiam com um discreto tilintar, como se comentassem as aulas.
O Alquimista pediu a Arel que repetisse o gesto, desta vez sobre um prato vazio. Nasceu uma chama pequena. Depois pediu a Inara que pronunciasse o mesmo encantamento. Nada aconteceu. A moça lançou-lhe um olhar em que se liam, com clareza, o preço da folha perdida e o do tempo que continuava a perder.
Ele pôs no prato um punhado de terra. Inara deixou a mão suspensa. Uma raiz atravessou o torrão.
Não houve palavra alguma.
O Alquimista sentou-se devagar.
Durante muitos anos estudara feitiços herdados, repetira gestos que não compreendia e reparara objetos cujo fabricante atribuía qualquer defeito ao usuário. Fora cavaleiro por pouco tempo, estudioso por muito e homem satisfeito quase nunca. As velhas artes haviam salvado vidas. Ele não as desprezava. Mas o mundo mudara, e seus mestres continuavam a responder às novas feridas com as mesmas receitas.
— A palavra não basta — murmurou.
Abriu um volume roído de umidade. Na folha de rosto lia-se Merlinus. Não se sabia se o nome designava o autor, o copista ou a escola que reunira aquelas páginas. A incerteza, até então, servira para que ninguém levasse o texto muito a sério.
O trecho dizia que o encantamento ordenava a mana do praticante, preparando-lhe uma passagem. A chama chegava por essa passagem. A obediência não estava garantida.
— Então o guarda também falhou no requerimento — disse Arel.
Inara não riu. Aproximara-se da raiz.
A ponta branca procurava água sob uma pedra seca. Ela inclinou o prato para que alcançasse a umidade da folha queimada. A raiz dobrou-se lentamente.
Foi o primeiro ensinamento daquela oficina. Não veio do livro nem do mestre: veio de uma coisa viva que, mesmo chamada pela magia, continuava a precisar de água.
Naquela noite desci com papel novo. O Alquimista retirara a placa da porta. Onde antes se lia «Preparações menores», escreveu apenas «Experiências».
Deixou a palavra «menores» guardada numa gaveta.
Mais tarde faria falta.