Epílogo — A porta aberta

O mensageiro voltou três dias depois.
Trazia uma tigela.
Não precisava ter trazido. Reconheci-o pelo modo como aguardou à entrada, como se a casa ainda pudesse decidir se consentia sua presença. O cabelo estava branco. Nos olhos havia uma quietude que eu conhecera primeiro na neve.
— Demoraste — disse.
— Havia caminhos novos.
— Sempre houve.
Ele pousou a tigela na mesa. A rachadura fora presa com uma liga escura. Não continha pregos, mas sementes.
Sentamos junto à janela. Contei-lhe quem partira, quem ainda ensinava e quais erros tínhamos repetido mesmo depois de escrever advertências a respeito. Ele contou que o livro recebera abrigo em casas onde falavam línguas diferentes. Algumas notas haviam sido traduzidas duas vezes. Arel teria detestado o que fizeram com suas melhores ironias.
Nael perguntou se eu encontrara a folha de rosto.
— Encontrei também a confissão.
Assentiu.
Lá fora, uma aprendiz tentava conduzir uma centelha. Um menino lhe oferecia uma pedra; outro sugeria que começassem com menos fogo. A moça perdeu a concentração, apagou o clarão e riu. Ninguém a chamou de fracasso.
O mundo não estava curado. Havia fome em terras distantes, governantes que confundiam proteção com posse e estudiosos certos de que sua vez seria diferente. Havia também uma criança aprendendo a esperar antes de acender alguma coisa.
Abri o livro para ela.
Não na página das grandes formas nem na do cerco. Mostrei-lhe a raiz procurando água sob uma pedra seca. Aproximei a tigela da página.
— Começai por aqui — disse.
Nael deixou a porta aberta ao sair.
Alchemia é magia que transforma.