XV — O nome que foi raspado

Levamos anos para reunir este livro.
Arel queria começar pela fornalha, na parte em que finalmente acertara. Inara pedia mais espaço para o pomar e para os trabalhadores que derrubaram a árvore. Dário corrigia as passagens em que a Morte parecia uma vontade cruel distribuindo castigos. Tovan retirava adjetivos dos relatos de batalha. Nael desaparecia com os cadernos e os devolvia com páginas que cheiravam a neve.
O Alquimista acrescentava notas tão compridas que precisei costurar abas às margens.
Eu era responsável por manter os desacordos legíveis.
Recebíamos narrativas de outras terras. Havia o lugar onde ninguém morria e onde as feridas jamais encontravam repouso; a terra tornada tão pura que nada podia alimentá-la; a aldeia preservada sob gelo com a praga ainda adormecida em seus habitantes. Nem todas as testemunhas mereciam a mesma confiança. Escrevíamos o que se sabia e o que apenas se repetia.
Vieram ainda a floresta que sufocara sob o próprio crescimento, a tempestade alimentada até perseguir seus condutores, a muralha que aprendera a recusar os moradores e o corpo perfeito que não reconhecera os que o criaram.
Essas histórias não eram provas de que os elementos deveriam permanecer imóveis. Eram advertências contra a vontade de impedir que um deles cedesse lugar. A destruição podia servir ao ciclo. A proteção podia interrompê-lo. Julgar exigia olhar para o que acontecia, e não apenas para a cor da magia.
Dário escreveu: «O equilíbrio não é a ausência do fim.»
Inara acrescentou: «Nem a presença de tudo em medidas iguais.»
Tovan deixou uma pergunta: «Quem paga pela medida escolhida?»
O Alquimista permaneceu muito tempo diante dela.
Nessa altura já chegavam visitantes para ver o homem a quem chamavam criador de Alchemia. Queriam ouvir que tudo começara numa única visão. Alguns traziam retratos em que ele aparecia mais alto, mais jovem e rodeado de criaturas que nunca convocara. Ofereciam-lhe dinheiro para assinar relatos breves.
Ele assinou um.
Eu o encontrei sobre a mesa e perguntei onde estava minha mão naquela história.
Não respondeu.
Na manhã seguinte, raspou o próprio nome da folha de rosto do nosso livro. Protestei: a culpa não desaparecia com as letras. Mostrou-me a confissão, conservada inteira no caderno dos registros, e pediu que nenhuma cópia a omitisse.
— Quero retirar a posse — disse. — A responsabilidade fica.
Não sei se foi humildade suficiente. Sei que era mais difícil do que aceitar um retrato.
Conservamos sete mãos nas margens. Sálvia recusou uma página só sua. Dizia que já havia raízes demais atravessando as nossas. Transcrevi as instruções ditadas por Enna. Ela exigiu que seu nome permanecesse junto delas, pois alguém precisava saber a quem procurar quando uma receita estivesse mal copiada.
Na última reunião, Nael propôs levar o volume às casas do norte para compará-lo com seus arquivos. Arel quis prazo. Inara pediu que o embrulhasse direito. Dário lembrou que papel também morria. Tovan lhe entregou uma correia nova para a bolsa.
Escrevi a última folha com a mão esquerda. As primeiras ainda guardavam a letra que perdera. Não quis copiá-las de novo: as duas escritas contavam uma parte da história que nenhuma frase deveria esconder.
Nael prometeu voltar.
Como todo aquele que muda de forma por tempo bastante, tinha uma compreensão inconveniente da palavra «breve».
Na última folha se lê:
«Todo aprendiz deseja comandar uma força da natureza. Todo mestre descobre que a força o observa de volta. Escolhe não apenas o elemento que desejas chamar, mas a transformação que estás disposto a suportar.»
Abaixo acrescentei:
«E não peças a outro que pague sem saber.»