XIV — O que os vencedores devem

Os sinos não anunciaram vitória.
A corda do campanário fora desfiada contra a quina da pedra durante os anos de imobilidade, e ninguém podia puxá-la sem risco. Enna mandou substituí-la. Levou dois dias. Esse pequeno atraso impediu que a cidade celebrasse antes de contar seus mortos.
Odran respondeu diante dos sobreviventes. O Alquimista sentou-se ao lado dele.
Alguns desejaram dar ao custódio toda a culpa, para conservar um salvador sem mácula. Outros queriam expulsar todos os estudiosos e queimar os livros. Lessa levou ao conselho a folha da carta. Agora era pó dentro de um pano.
— Não quero perder outra casa — disse. — Dizei o que fareis para que eu possa saber antes.
Dessa pergunta nasceu um compromisso mais exigente que qualquer hino. Os preparos seriam registrados com origem, custo e duração. Quem autorizasse uma obra assinaria a decisão. Os fracassos permaneceriam nos arquivos junto aos êxitos. Nenhuma defesa seria considerada boa apenas por impedir passagem; seria preciso perguntar quem precisava atravessá-la.
Odran perdeu o ofício. Não foi transformado em monstro para facilitar nossa memória. Trabalhou durante muitos anos nos registros das famílias atingidas, sob a autoridade daqueles que ele antes governara. Alguns jamais o perdoaram. Ele aprendeu a não exigir perdão como prêmio por ter começado a reparar o dano.
O Alquimista entregou os seus cadernos completos, incluindo as páginas que lhe eram desfavoráveis. A cidade permitiu que continuasse ensinando, acompanhado por outros mestres. Ele aceitou uma mesa menor. Pela primeira vez, a medida pareceu-lhe suficiente.
As cinco vocações não nasceram do nosso conselho. Já havia caminhos semelhantes em lugares que nunca visitáramos. O que trouxemos foi uma linguagem para aproximar experiências: o Arcanista compreendendo Fogo e Energia; a Herbologista distinguindo as medidas da Terra; o Comensal aprendendo a Morte e a fome; o Guardião unindo propósito sagrado e corpo; o Transmutador conservando, no Gelo, uma passagem para a mudança da forma.
Eram sete forças em cinco disciplinas, não sete tronos disputados por cinco reis. O Físico sustentava todas e encontrava expressão deliberada em mais de uma. Mana continuava a ser o meio da condução. Sangue permanecia matéria e ponte. Cura era um trabalho; veneno, uma manifestação da Terra. Nenhuma descoberta exigira acrescentar um elemento secreto para tornar seu autor mais importante.
Cavaleiros, paladinos e monges não precisaram fingir que nunca haviam existido. Alguns conservaram seus ofícios. Outros reconheceram nas novas escolas uma explicação para aquilo que seus corpos já faziam. Trouxeram disciplina, armas, respiração e juramentos. Receberam novas responsabilidades junto com os novos nomes.
Inara abriu um jardim ao lado da enfermaria. Havia uma tesoura pendurada à entrada.
Arel passou a exigir que cada aprendiz desenhasse a saída da corrente antes de chamar o clarão. Dário conservou um lugar vazio à mesa, não para os mortos, mas para quem chegasse com fome. Tovan ensinava os guardas a abrir portas sem descuidar de quem estava dentro. Nael saía por longos períodos e deixava, sobre a cama, uma tarefa que pretendia terminar ao regressar.
Os familiares tiveram lugar nesses ensinamentos. Falávamos de sua força e também de sua duração, do cuidado ao chamá-los e do espaço que lhes era devido. Não os tratávamos como uma coleção de provas do prestígio de alguém.
As estações voltaram a exigir trabalho. Em certos dias uma força respondia com vigor incomum; as mudanças da lua favoreciam práticas diferentes. Os estudiosos ofereciam explicações. Sálvia saía ao pátio, erguia o rosto e dizia que o mundo respirava.
Não a contradizíamos por hábito.
Também não deixávamos de medir.
Na porta da oficina, o Alquimista recolocou a placa antiga. Acrescentou-lhe «e reparos». Agora se lia «Experiências e reparos».
Arel perguntou se ainda guardava «menores».
O mestre abriu a gaveta.