XIII — A noite das passagens

A primeira porta foi aberta por um homem que não sabia conjurar.
Era um dos guardas da oficina. Sua mulher permanecia na enfermaria, conservada numa febre que não terminava. O guarda leu a confissão, dobrou-a e perguntou se abrir o círculo a mataria.
Não lhe prometemos que viveria.
Ele abriu a porta assim mesmo.
Enna reunira trabalhadores no pátio. Conheciam os condutores, as comportas e as peças que haviam instalado. O Alquimista lhes mostrou os intervalos do desenho antigo. Não era preciso destruir o reservatório. Era preciso restituir passagem ao que fora obrigado a permanecer.
Isso deveria acontecer aos poucos. Libertar de uma só vez tudo o que Odran acumulara entregaria à cidade uma violência que suas paredes não suportariam. Arel foi o primeiro a dizer que não poderia resolver aquilo com uma explosão. Enna lhe apertou o ombro, um elogio que ele guardou pelo resto da vida.
Odran esperava-nos junto à escada inferior.
Não levava uma espada. Levava a chave que fechava a galeria das comportas. Seus guardas hesitaram ao reconhecer Tovan. Alguns tinham aprendido com ele. Outros lembravam o pátio dos refugiados.
O custódio ergueu a chave.
— Ainda podeis corrigir o que falta.
O Alquimista mostrou-lhe a própria confissão.
— Falta consentir que termine.
Odran recuou para dentro do círculo.
As defesas responderam à ameaça. A luz encheu a escada, e o ar adquiriu o peso que eu conhecera no primeiro experimento. Tovan firmou o cajado. O Escudo da Fé sustentou nossa passagem, mas não lhe deu força suficiente para romper a trava da galeria. Teria de mudar.
Avisou Inara.
Ela espalhou suas raízes pelos degraus rachados e levou os feridos para o abrigo das colunas. Os trabalhadores puxaram cordas. Tovan recolheu parte da proteção, encontrou a Mão da Justiça e golpeou a trava. O ferro cedeu no segundo impacto. Uma descarga atravessou o espaço deixado por sua barreira mais fraca e atingiu o braço de Enna.
A escolha salvara a passagem. Também ferira alguém.
Tovan não desviou os olhos quando ela gritou.
Arel abriu o primeiro condutor pela Energia, dando à corrente um caminho até a bacia de descarga. Depois recompôs a respiração e utilizou o Fogo para soltar uma junta petrificada. Cada força cumpria uma tarefa distinta. Onde precisou combiná-las, limitou a manifestação à pequena área já desocupada. Nenhum clarão apagou a necessidade de esperar que o carpinteiro retirasse a mão.
Nas galerias baixas, Nael tomou a Pele do Urso e amparou uma viga. O peso lhe roubava rapidez. Não tentou convocar ao mesmo tempo a agilidade da pantera. Pediu que Arel passasse primeiro e cortasse a corda presa adiante.
Foi difícil pedir.
Pediu novamente quando não o ouviram.
Dário encontrou a defesa do círculo concentrada em criaturas alimentadas pelo excesso acumulado. Podia feri-las de longe e continuar perdendo o pouco alento que lhe restava, ou aproximar-se e buscar uma troca mais estreita. Escolheu o Sifão. Tovan lhe abriu caminho; a proximidade o expôs aos golpes. Recolheu força somente onde sua arte de fato alcançou o adversário. Quando a resistência impediu a drenagem, recuou. A fome não criou uma vitória que o corpo não pudesse conquistar.
Os familiares acompanharam o trabalho enquanto duraram os vínculos. Fagulha reconhecia fugas da corrente; Lodo assinalava a água que apodrecia; Vigília guardava o corredor; Umbro ajudou a conter os fragmentos de pedra; Rastro percorreu a borda fria da galeria. Nenhum resolveu sozinho aquilo que exigia tantos ofícios. Quando cessaram as manifestações, seus companheiros continuaram sem fingir que não sentiam a falta.
Eu permaneci junto à comporta central com os dois desenhos. As letras tremiam à luz da candeia. Mostrei ao Alquimista a linha que atravessava o testemunho dos mortos.
Odran se colocou diante dela.
— Se a abrirdes, tudo o que guardei será perdido.
Dário olhou para os nomes gravados na prata.
— Parte disso já foi perdida. Estais ferindo o que ainda resta para não o dizer.
O custódio ergueu a chave como se pudesse oferecê-la à filha. O gesto ficou suspenso. Pela primeira vez, pareceu um homem cansado diante de outros homens, e não o centro de uma cidade.
Tovan poderia derrubá-lo. Em vez disso, estendeu a mão.
Odran não a tomou. Deixou a chave cair.
A última passagem se abriu ao amanhecer.
O rio não voltou de súbito ao curso antigo. As águas precisaram ser conduzidas. Na enfermaria, alguns doentes enfim dormiram; outros morreram cercados por quem os amava. Nem todas as sementes nasceram naquela primavera. Houve enterros, trabalho e uma cólera justa contra os responsáveis.
Diante da oficina, uma folha seca se desfez quando a pisei.
Não soube decidir se devia chorar.
Chorei.