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Book of Affinities

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O LIVRO DAS AFINIDADES

XII — A cidade sem outono

Ilustração de XII | A cidade sem outono

A carta de Lessa chegou dobrada em torno de uma folha.

A folha estava seca. Não se desfazia.

«Há três outonos que varremos as mesmas folhas», escreveu ela. «Meu filho cresceu. A sombra da árvore do pátio não mudou de lugar. Odran diz que finalmente nos livrou da perda. Se isso é verdade, por que tenho tanto medo de deixar cair um prato?»

Voltamos juntos.

Na estrada, encontramos carroças cheias de ramos, tecido gasto e restos que não completavam sua ruína. O cheiro permanecia suspenso entre a matéria viva e a decomposição. Nada tinha a limpeza de uma cura. Tudo parecia aguardar uma ordem que nunca chegava.

Os campos próximos ao muro estavam pobres. O que morria não retornava à terra como antes. As lâmpadas da praça continuavam acesas. As crianças conheciam o brilho e ignoravam que, em outras cidades, o céu podia escurecer por inteiro.

Odran recebeu-nos no pátio da Casa das Medidas. Envelhecera. Suas mãos tremiam menos do que antes, mas havia no rosto uma atenção terrível, como se ouvisse em cada ruído o início de uma desgraça.

— Ninguém aqui foi levado pela última enchente — disse.

Era verdade. A barreira desviara as águas. Também era verdade que o rio já não entregava sedimento aos campos baixos.

— Os feridos resistem — acrescentou.

Levou-nos à enfermaria. Um homem mantinha a mesma ferida havia muitas semanas. Não morrera. Não sarara. Sua mulher sentava-se ao lado, com a costura no colo, e contava as mudanças da luz para saber quando devia voltar para casa.

Dário pediu que o homem falasse. Ele pediu sono.

Odran fechou a porta antes de ouvir o restante.

No reservatório, vimos o desenho que o Alquimista não quisera rever. As sete forças alimentavam uma disposição fechada. Odran não destruíra a cópia. Aumentara-a, substituíra materiais, reunira inscrições, buscara gente suficiente para renovar os preparos. O que faltava a cada tentativa era apresentado como prova de que precisava de mais uma.

O centro chamava-se Coração Imóvel.

Não era uma oitava força. Era a pretensão de obrigar as sete a sustentar para sempre uma única ordem.

A filha de Odran não estava ali. Descobrimos isso quando ele nos conduziu ao sepulcro: a morte dela já ocorrera antes da obra, e nenhuma conservação do presente podia restituí-la. O custódio sabia. Sua cidade perfeita se erguera para que ninguém mais precisasse saber a mesma coisa.

Tovan demorou a responder.

— Eu também teria desejado isso.

Odran se voltou para ele com esperança.

— Então ajudai-me.

— A abrir o círculo.

O custódio chamou os guardas.

Fomos conduzidos à antiga oficina, agora vigiada. Enna conseguiu fazer chegar pão e minha caixa de escrita. Sob o fundo falso da caixa estava a folha que eu conservara desde o primeiro experimento. Tinha a letra do Alquimista junto à linha de encerramento.

Pedi-lhe que a lesse em voz alta.

Ele leu. Depois afirmou que Odran ampliara o erro.

— Sim — respondi. — Começa, porém, pelo que fizeste tu.

Arel olhou para o chão. Inara permaneceu junto à janela. Tovan pousou a ordem antiga sobre a mesa. Nael manteve os dedos em sua varinha. Dário esperou sem máscara.

O Alquimista pediu papel.

Escreveu que completara a linha apesar da advertência. Escreveu que aceitara o dinheiro de Odran, que lhe enviara resultados e que adiara o confronto por vergonha de reconhecer a própria participação. Não chamou a isso destino.

Assinou a confissão com o nome que mais tarde rasparia da folha de rosto.

Eu fiz duas cópias antes de o sol nascer.

Sumário · Crônica, cadernos e personagens
  1. Prólogo — A sétima mão
  2. I — A cidade que repetia
  3. II — O que a cinza conserva
  4. III — Sete círculos e uma cadeira vazia
  5. IV — Os caminhos do Círculo Alquímico
  6. V — A distância de uma chama
  7. VI — O jardim que precisava de tesoura
  8. VII — O lugar à mesa
  9. VIII — A porta do juramento
  10. IX — O nome sob a língua
  11. X — Aquilo que o ferro aceita
  12. XI — Aqueles que respondem
  13. XII — A cidade sem outono
  14. XIII — A noite das passagens
  15. XIV — O que os vencedores devem
  16. XV — O nome que foi raspado
  17. Epílogo — A porta aberta
  18. Caderno I — Roteiro das sete mãos
  19. Caderno II — Três folhas de prática
  20. Caderno III — Memorial dos companheiros
  21. Caderno IV — Das sete forças
  22. Caderno V — Testemunhos do desequilíbrio
  23. Colofão — O que se conservou
  24. As cinco vocações
  25. Pessoas da crônica
  26. Palavras das afinidades

Crônica das sete forças e do nascimento das cinco vocações. Quinta edição, revista e ampliada — setembro de 2026.

Universo e texto de origem: projeto Alchemia. Desenvolvimento literário, revisão, ilustrações e diagramação com assistência de inteligência artificial e direção do criador do projeto.

Os relatos, tratados e vozes das margens pertencem à ficção. A carta da jornada representa os lugares da crônica.

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