X — Aquilo que o ferro aceita

O inverno seguinte nos devolveu à cidade por um caminho diferente. Na muralha havia novas inscrições. As lâmpadas da praça permaneciam acesas mesmo durante o dia. Odran atribuiu a melhoria ao aproveitamento dos estudos que ainda lhe enviávamos e nos convidou para vê-la de perto.
O Alquimista recusou a visita ao reservatório. Aceitou, porém, reparar os instrumentos da guarnição. Dizia que os soldados não deveriam pagar pelos desacordos dos sábios. Hoje reconheço nessa resposta uma verdade e um esconderijo.
Instalamo-nos na antiga forja. A mestra do lugar chamava-se Enna. Tinha uma perna rígida, braços fortes e a cortesia breve de quem sabe quanto tempo custa o trabalho alheio.
Foi ela quem nos ensinou a diferença entre obrigar um objeto a suportar um encanto e prepará-lo para recebê-lo.
A matéria possuía limites. Uma peça sem alojamento adequado não aceitaria a inscrição que desejávamos. Duas marcas que exigissem o mesmo lugar não passariam a coexistir porque seu dono pagara mais. O metal fatigado precisava de reparo; a magia não o absolvia das fissuras.
Enna separava os ingredientes por aquilo que podiam testemunhar. Um vestígio de resistência servia a uma proteção; uma substância que conservara impulso podia auxiliar o retorno de força. Os nomes e as preparações mudavam conforme a peça e o efeito. Paracelcium fornecera princípios, não uma receita universal que dispensasse o ofício.
O trabalho consumia materiais e ouro. Parte do ouro pagava a casa, o fogo e os trabalhadores; parte seguia os preparos exigidos pela oficina. Não havia nobreza em esconder esse custo atrás da palavra «mistério».
Concluído o procedimento correto, o imbuimento respondia. Certa vez faltou um ingrediente, e Enna cobriu a peça com um pano, apesar da pressa do comprador. Quando o ajudante voltou com o que era devido, Enna descobriu o metal, completou o preparo e fez a inscrição responder. Não acrescentou ao preço uma taxa pelo medo do cliente.
Ainda assim, o efeito não era eterno.
A memória oferecida ao objeto se gastava no uso. A espada continuava espada quando o encanto cessava. O portador que confundisse o silêncio da runa com uma traição do ferro demonstrava apenas que não ouvira a explicação.
Arel pediu que sua varinha recuperasse parte da mana empregada nos confrontos. Enna o fez repetir, em voz alta, que a recuperação dependia da ação para a qual fora preparada e não lhe concedia uma nascente sem fim. Ele obedeceu com a solenidade de quem está sendo observado por todos os amigos.
Tovan levou o escudo. Desejava maior resistência, mas o metal não comportava tudo o que imaginara. Teve de escolher. Dário observou a peça e disse que era reconfortante encontrar um objeto menos ambicioso do que o dono. Tovan deixou que ele risse.
Inara trouxe meu estilete. Quis que eu voltasse a escrever sem que a mão esquerda se fatigasse tão depressa. Enna examinou a ferramenta, ajustou-lhe a empunhadura, acrescentou um apoio de madeira e recusou o encantamento.
— Para isto, tenho uma solução melhor.
Usei esse estilete até os cabelos embranquecerem.
Ao entardecer, um ajudante deixou cair a caixa de insumos enviados pelo reservatório. Entre os fragmentos havia um pó com o mesmo cheiro do salão dos círculos, além de aparas de prata marcadas com nomes. Dário reconheceu o nome de um morto recente. Tovan reconheceu o selo de Odran.
Perguntamos a Enna se fornecia peças à Casa das Medidas.
— Desde que começastes a viajar — respondeu. — O custódio diz que vossos estudos finalmente aprenderam a trabalhar sem vós.
O Alquimista fechou a caixa. Havia pó em seus dedos.
Foi a primeira vez que o vi tentar livrar-se de uma lembrança esfregando as mãos.
Escrevemos a Odran. A primeira carta voltou sem resposta; a segunda trouxe uma convocação para entregar os cadernos. O Alquimista ainda acreditava numa conversa particular. Tovan pediu as contas da guarnição quando lhe recusaram acesso ao reservatório. Levamos os desenhos antigos para a Casa do Círculo, onde poderíamos estudá-los sem entregar a oficina a uma luta. A retirada foi chamada de covardia por alguns. Conservo a acusação, pois demoramos mais do que devíamos. Continuamos a procurar aliados e a reunir testemunhos enquanto o custódio reforçava sua obra.
Do Livro das Memórias do Ferro, conservado na forja de Enna
> Examina a peça antes de prometer-lhe um prodígio. Declara o que será consumido, o que permanecerá e o que há de se gastar. Não ofereças duração sem termo a quem só te trouxe matéria finita. Ao entregar o objeto, ensina também a reconhecer o fim do encanto.
> Nota de Enna: acrescentai o preço antes da cerimônia. A surpresa não melhora a alquimia.