IX — O nome sob a língua

Nael desapareceu na primeira nevada daquele inverno.
Encontramos suas roupas junto à margem, dobradas com cuidado. A varinha repousava por cima. Nela havia cinco entalhes: uma janela, um rosto quase gasto, uma embarcação, um nome e uma marca que não reconhecemos. O Alquimista quis recolhê-la. Sálvia o impediu.
— Deixou o caminho de volta num lugar onde pudesse encontrá-lo.
Esperamos até o anoitecer. Sálvia então recolheu a varinha e a entregou a Tovan: se Nael não encontrava o caminho, levaríamos o caminho até ele. Depois subimos.
Eu o vira mudar antes: os dedos alongados, a coluna procurando outra postura, o frio detendo a pressa da carne. Ele falava daquilo como de uma liberdade. Nunca lhe perguntei de que tentava libertar-se.
No alto, os sulcos da neve terminavam diante de uma fenda. De dentro vinha um rosnado baixo. Tovan deixou o escudo no chão e me passou a varinha.
Nael não saiu quando o chamamos. Seus olhos refletiam nossa candeia. A forma de lobo ainda guardava algo humano nos ombros, uma irresolução dolorosa entre duas anatomias. O gelo lhe cobria o pelo sem o prender. Preservava os tecidos enquanto a mudança se assentava.
Lembrei-me da marca desconhecida. Era uma tigela rachada, a mesma em que ele comia na oficina.
— Arel quebrou tua tigela — disse.
O rosnado cessou.
— Tentou consertá-la com resina. Inara disse que te envenenaria. Agora ela serve para pregos.
Nael aproximou o focinho da varinha.
Muito depois me contou que, naquele instante, a palavra «pregos» lhe parecera absurda e familiar. Foi o primeiro fio que conseguiu segurar. O nome veio em seguida, e com ele a lembrança de ter prometido voltar para terminar uma tarefa sem qualquer grandeza.
Descemos levando suas roupas. Ele caminhou por parte do caminho como lobo, por parte como homem e em nenhuma delas fez graça.
Aprendeu três modos de servir à mudança. No Lobo Gélido, o frio estendia seu domínio, atrasava a ameaça e lhe concedia tempo para escolher. Não podia deter para sempre aquilo que o enfrentava. Havia criaturas que sacudiam a geada antes mesmo que ele fechasse a mão.
Na Pele do Urso, o corpo aceitava peso e resistência. Os passos se tornavam mais lentos, e tanto a garra quanto o frio cediam algo da violência. Nael usou essa forma para sustentar uma passagem enquanto atravessávamos; depois precisou sentar-se para ouvir o próprio coração voltar ao ritmo de homem.
Na Pata da Pantera, descobriu rapidez, perseguição e o movimento que encontrava uma fresta entre dois golpes. A facilidade de correr não lhe ensinava para onde. Era a postura em que mais precisava lembrar a razão da travessia.
Nenhuma delas continha todas as virtudes das outras. O sonho de reunir a fera perfeita passou-lhe pela cabeça, como passaria por muitas depois. O Alquimista lhe mostrou um relato cuja última folha fora arrancada. Não lhe disse que desistisse de aprender. Pediu apenas que observasse quanto silêncio havia depois das afirmações de êxito.
Nael começou a escrever antes de cada transformação. Anotava onde estava, quem o esperava e que tarefa pretendia cumprir. Ao retornar, conferia as três coisas. Às vezes acrescentava o que o corpo animal percebera e o homem esquecera: a água ruim sob a ponte, o medo num cavalo, o cheiro de uma doença ainda sem nome.
O instinto oferecia notícia. A escolha continuava a exigir pensamento.
Numa dessas páginas confessou por que fugira. Sonhara que a vida de fera lhe pouparia a vergonha de ter sido carregado para fora dos círculos.
Tovan leu o trecho e escreveu ao lado: «Eu também precisei que alguém me carregasse.»
Guardamos a tigela.
Anos depois, entre os objetos usados para ensinar as artes da metamorfose, ela seria o mais difícil de explicar aos visitantes ilustres. Esperavam um cristal raro, um osso de monstro, uma relíquia dos primeiros tempos.
Encontravam um recipiente ruim para sopa.