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Livro das Afinidades

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O LIVRO DAS AFINIDADES

Prólogo — A sétima mão

Ilustração de Prólogo | A sétima mão

O livro chegou sem capa, embrulhado num pano que ainda guardava o cheiro do inverno. Quem o trouxe pediu água, recusou pagamento e partiu antes que o sino chamasse os aprendizes. Sobre o banco deixou uma lasca de gelo. Ao meio-dia, a lasca continuava inteira.

Fui eu quem abriu o embrulho. Reconheci a minha letra na última folha.

Havia quarenta e três anos que não via aquela folha.

Nas primeiras folhas, a letra pertencia à minha mão direita. Na última, já se reconhecia o trabalho da esquerda, que agora pousava sobre o papel, gasta de tanto corrigir o que outros haviam tido a bondade de chamar história. Li a primeira sentença e ouvi outra vez a voz de um homem diante de sete círculos apagados.

«Toda transformação exige que algo deixe de ser o que era.»

Abaixo, alguém escrevera: «Convém perguntar a quem pertence esse algo.»

Essa segunda letra também era minha.

As folhas não estavam em ordem. Uma receita de unguento vinha depois da descrição de um cerco; a confissão de um homem precedia seu juramento; um desenho de garras fora costurado a um inventário de pão. Separar os assuntos teria facilitado o trabalho dos bibliotecários. Teria arruinado o livro. As garras, o pão e o juramento haviam pertencido à mesma noite.

Contavam-se sete mãos nas margens. Uma comprimia as palavras como quem economiza espaço numa sepultura. Outra desenhava raízes em torno dos erros. A terceira feria o papel com tamanha pressa que os pingos de tinta pareciam cair para a frente. Havia uma letra quadrada, uma que se tornava quase ilegível no frio e a do nosso mestre, cujo nome fora raspado com uma lâmina.

Não fui eu quem o raspou.

Durante anos, porém, permiti que acreditassem nisso.

Chamam-no hoje Grande Alquimista. Alguns afirmam que criou os elementos. Outros lhe atribuem todas as vocações, como se povos inteiros houvessem aguardado por um único homem para aprender a curar, resistir e morrer. Ele teria rido dessas histórias. Depois, em segredo, talvez tivesse guardado a melhor.

Escrevo o que vi, o que ouvi de testemunhas e o que os mortos deixaram escrito. Onde as versões divergem, conservo a divergência. Não hei de endireitar uma vida apenas para que caiba numa prateleira.

Quanto ao mensageiro, voltaram a avistá-lo junto ao caminho do norte. O moleiro jurou que era um homem. Sua filha disse que era um lobo. Conhecendo ambos, dou crédito à menina.

Meu nome é Íria.

Esta é a sétima mão.

Sumário · Crônica, cadernos e personagens
  1. Prólogo — A sétima mão
  2. I — A cidade que repetia
  3. II — O que a cinza conserva
  4. III — Sete círculos e uma cadeira vazia
  5. IV — Os caminhos do Círculo Alquímico
  6. V — A distância de uma chama
  7. VI — O jardim que precisava de tesoura
  8. VII — O lugar à mesa
  9. VIII — A porta do juramento
  10. IX — O nome sob a língua
  11. X — Aquilo que o ferro aceita
  12. XI — Aqueles que respondem
  13. XII — A cidade sem outono
  14. XIII — A noite das passagens
  15. XIV — O que os vencedores devem
  16. XV — O nome que foi raspado
  17. Epílogo — A porta aberta
  18. Caderno I — Roteiro das sete mãos
  19. Caderno II — Três folhas de prática
  20. Caderno III — Memorial dos companheiros
  21. Caderno IV — Das sete forças
  22. Caderno V — Testemunhos do desequilíbrio
  23. Colofão — O que se conservou
  24. As cinco vocações
  25. Pessoas da crônica
  26. Palavras das afinidades

Crônica das sete forças e do nascimento das cinco vocações. Quinta edição, revista e ampliada — setembro de 2026.

Universo e texto de origem: projeto Alchemia. Desenvolvimento literário, revisão, ilustrações e diagramação com assistência de inteligência artificial e direção do criador do projeto.

Os relatos, tratados e vozes das margens pertencem à ficção. A carta da jornada representa os lugares da crônica.

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